30 outubro, 2017

Uma reflexão crítica sobre os boicotes promovidos por alguns evangélicos


Recentemente alguns pastores e cantores evangélicos resolveram promover campanhas de boicote a marcas que demonstraram alguma simpatia pela causa LGBT. Silas Malafaia, Marco Feliciano, Ana Paula Valadão e outros, conclamaram seus seguidores para deixarem de comprar produtos de determinadas marcas, que segundo eles, estariam incentivando a homossexualidade, apoiando a pedofilia e atentando contra a família tradicional.

A lista de empresas é extensa: C&A, Boticário, AVON, OMO, Rede Globo...

De repente, milhares de evangélicos passaram rejeitar tais marcas.

Agora, qual o sentido disso tudo? Qual o propósito? A quem isso interessa? Quem está sendo edificado ou beneficiado com tais posturas? Em que Deus é glorificado e o meu próximo abençoado com um boicote do tipo?

Antes de avançar o raciocínio, vamos nos deter ao fato de que o Brasil está passando por uma severa crise financeira e que milhares de pessoas estão desempregadas. Quando se promove uma ação contra uma empresa isso resulta na queda de vendas e, consequentemente, em demissões em massa. O produto não vende, então demite-se os vendedores, fecha-se a loja, demite-se quem trabalha na indústria, e assim sucessivamente, um efeito cascata que abala a renda e o sustento de milhares de famílias.

Será que vale a pena boicotar uma empresa porque um líder evangélico decidiu puni-la por não concordar com os seus valores cristãos? Pior... Vale a pena levar adiante um boicote sabendo que milhares de pessoas poderão ser prejudicadas e perder seus empregos? Já pensou nisso, caro crentelho militante dos boicotes?

Dito isso, vamos seguir. Se é pra fazer boicote, tem que fazer direito. Não vale ser incoerente. Quero ver a crentelhada boicotar a Coca-Cola, que recentemente fez uma campanha em prol da causa LGBT, quero ver boicotar o Facebook e o Google. Boicote também a Apple, deixe de usar Windows e os softwares do pacote Office, porque a Microsoft é presidida por um homossexual.

Você que é a favor dos boicotes e usa terno e gravata, deixe de usar a gravata, pois é criação de um homossexual, portanto, “é coisa do demônio”. Também não viaje de avião e nem utilize relógio de pulso, pois ambos são invenções de um homossexual.

É impressionante a irrelevância desses boicotes, que apenas servem para demonstrar o poder de influência de alguns líderes. Tudo se resume a capital político e demonstração de força. Certamente há coisas mais produtivas para se fazer do que realizar boicotes.

É impressionante a tara dos crentelhos com a questão da homossexualidade. Para eles, todo assunto acaba em gay. Você fala de futebol eles dão um jeito de falar de gay, fala de política a mesma coisa, fala de carros, idem... É uma fixação!

Se estão procurando por inspiração para promover boicotes, sugiro que olhem para história e aprendam com o caso do movimento pelos direitos dos negros nos Estados Unidos. Os negros eram proibidos de sentar nos ônibus, até quem um dia, Rosa Parks, uma trabalhadora norte-americana, negra, se recusou a se levantar. Um branco disse para ela: "Levanta daí, sua macaca." Ela se recusou. Na época houve um grande movimento de boicote ao transporte rodoviário. Como a maioria dos passageiros eram negros, as empresas começaram a sentir no bolso, pois eles iam trabalhar a pé, mas não utilizavam os ônibus. Como sabemos, esse movimento ganhou a liderança de Martin Luther King Jr. e culminou numa série de conquistas para a população negra. Na época os negros não podiam andar na mesma calçada que brancos, haviam bebedouros distintos para negros e brancos.

As galerias que existem nas igrejas americanas e, que aqui no Brasil insistimos em copiar, tinham uma função: separar negros de brancos.

Outro grande exemplo foi o de Gandhi. Esse pequeno homem lutou contra a exploração e o preconceito na África do Sul. Na Índia, lutou pela independência do país, até então vinculado a Inglaterra. Promoveu um boicote a indústria têxtil inglesa que explorava a colônia, cobrando preços exorbitantes. Os indianos passaram a produzir artesanalmente o seu próprio tecido. O boicote culminou na independência da Índia.

Ambos os exemplos mostram uma objetividade, um sentido e uma relevância para se promover um boicote. Bem diferente do que está acontecendo no Brasil.

Para finalizar, por que não promover um boicote a empresas que fazem uso de trabalho escravo, que exploram sua mão de obra? Parece que isso não preocupa muita gente. Tudo que é de ordem moral causa alarde, agora aquilo que diz respeito a ética, a justiça a igualdade e ao bem-estar comum passa longe.

Quer promover um boicote? Promova. Mas faça isso movido pela sua consciência e não atendendo ao pedido de um líder famigerado que possui desejos escusos.

Até.


A. F. Freitas



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