11 fevereiro, 2016

Famílias desprezadas pela igreja

Famílias desprezadas pela igreja
Por Allan Felipe Freitas

Não faz muito tempo, uma irmã que beira a terceira idade procurou-me para desabafar. Ela, solteira, dedicou toda sua juventude em prol de seu ministério, os poucos relacionamentos que teve não prosperaram, por isso, nunca se casou.

A aflição de sua alma era por conta do que estava acontecendo em sua igreja. O pastor tinha uma visão muito voltada para as famílias. Então, havia muitos congressos para casais, cultos para família e etc. O próprio culto de domingo à noite era voltado para a família.

Segundo o relato desta irmã, quase sempre nas ministrações o pastor pedia que as famílias se agrupassem, que casais se abraçassem, que os filhos viessem a orar com seus pais. Nestes momentos, ela, solteira e sem ter os seus pais em vida, sentia-se deslocada, excluída, rejeitada, alijada.

Às vezes parece que a igreja impõe a regra de que todos têm que se casar, o que não é verdade. O próprio Jesus explicou que nem todos foram eleitos para o matrimônio.

“Jesus respondeu: "Nem todos têm condições de aceitar esta palavra; somente aqueles a quem isso é dado.
Alguns são eunucos porque nasceram assim; outros foram feitos assim pelos homens; outros ainda se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus. Quem puder aceitar isso, aceite".
(Mateus 19.11-12)

A experiência narrada acima me levou a refletir... Não é que não sejam válido e louvável os esforços que muitas igrejas tem feito no intuito de fortalecer as famílias e os laços matrimoniais. Nesse sentido, vemos a criação de ministérios específicos bem como o crescimento de cursos, palestras, congressos, seminários e encontros, que tem como objetivo trabalhar com casais e com a família (pai, mãe e filhos).

Contudo, o discurso é sempre voltado para a família tradicional, patriarcal, “perfeita”, composta por pai, mãe e filhos. Ainda não vi qualquer ação da igreja que contemplasse qualquer outro tipo de arranjo familiar.

Não sei até que ponto a bandeira da defesa da família tradicional que tem sido levantada por muitos líderes tem interferido nesta questão. Todavia, as perguntas que ficam são essas: E quem não tem uma família nestes moldes? Será que alguém que tem uma família com um arranjo diferente não tem família? A família tradicional é o único modelo de família?

Nem todo mundo tem uma família composta de pai, mãe e filhos. Como fica a situação daqueles que possuem uma família diferente? Aquelas famílias formadas por mãe e filhos, por pai e filhos; por mãe, avós e filhos; por tio e sobrinhos; por irmão mais velho, esposa e irmãos mais novos, além de n outras configurações, não mereceriam serem tratadas como famílias? Não mereceriam uma assistência da igreja assim como a família tradicional?

A igreja é para todos, para todo tipo de pessoa e para todo tipo de família. Penso que esta questão deve ser discutida pelos pastores, deva fazer parte da pauta dos seminários teológicos além de ser alvo de textos presentes blogosfera cristã.

Assim como essa irmã, um número incalculável de irmãos e irmãs devem estar sofrendo com esta mesma questão. Infelizmente a mensagem que pode ser decodificada no meio evangélico é de que existe um modelo de família ideal, padronizado, “correto” que deve ser buscado a todo custo e que a felicidade só é possível dentro de uma família assim.

Eu posso imaginar quanto sofrimento tem acometido milhares de irmãos que se percebem como peixes fora d’água, como menos importantes, como desprezados, apenas pelo fato de não fazerem parte de uma família tida como ideal.

É hora de repensar nossas práticas, trabalhar de forma inclusiva e não excludente. Há milhares de famílias que precisam ser cuidadas, mas como a igreja poderá pensar nelas se nem ao menos as considera como famílias?

Se você faz parte de um arranjo familiar que não se encaixa na regra, não fique triste, nem se sinta menor do que ninguém. A sua família é linda, assim do jeito que é, pequena ou grande, ou, ainda que nem laços de sangue haja entre vocês, saiba, família é projeto de Deus e para Ele o que mais importa não é a forma, mas o amor.


Cuidemos de nossas famílias!


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2 comentários:

  1. O que que a Bíblia diz das novas formações de famílias de pessoas do mesmo sexo?

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  2. Olá Cristina! Bem vinda ao blog Evangelho Sem Censura (ESC). Não quis abordar esse assunto neste texto, pois sei que a sua pergunta é crucial em se tratando de um assunto tão polêmico.

    Pretendo dedicar um texto a esse tema.

    É uma questão atualíssima e que carece de discussão.

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