13 dezembro, 2015

O dia que Deus quebrou meu preconceito

PM, Rio de Paz, Manifestação, Morte
Por Mellina Freitas

Era dia 06 de dezembro, um domingo. Pela graça de Deus eu consegui ir à igreja pela manhã. A mensagem pregada pelo bispo Hermes Fernandes teve como título “Travessias”. Deus falava ao coração da igreja sobre o quanto mentimos quando afirmamos não ter preconceito contra ninguém. Nós afirmamos isso, mas lá no fundo... Bem, não preciso nem dizer nada, não é mesmo?

Aquela mensagem me tocou muito. Por isso, eu abri o coração e desde o final da pregação comecei a orar pedindo a Deus que Ele tratasse comigo, que quebrasse meus preconceitos. Três dias depois de ouvir a referida mensagem, (dia 09/12/15, uma quarta-feira) enquanto orava em casa, fui mais específica com o Senhor. Na medida em que me lembrava dos preconceitos que eu tinha, eu os enumerava e pedia a Deus para que eu fosse liberta de cada um deles. “Deles, irmã? Quer dizer que você alimentava mais de um? Como assim?” Sim, DELES... Desde já quero dizer que se você, meu caro leitor, arrota santidade em línguas estranhas, me desculpe, mas esse texto não é pra você, porque quem vos escreve é HUMANA, E NÃO UM ANJO!

A maioria das pessoas que me conhece não sabe, mas há anos eu carregava uma raiva muito grande dos policiais militares. Fiz faculdade de Direito durante um tempo, e tinha professores que também davam aula na ACADEPOL. Muitos dos alunos eram policiais, outros estudavam lá a fim de se preparem para fazer concurso para a polícia. Esses professores que davam aula “lá e cá”, sempre diziam que a mídia era cruel, porque só mostrava os PM’s corruptos. E na verdade, esses eram uma minoria. Recusava-me a acreditar naquilo que ouvia. Seguindo a leitura você entenderá o motivo.

No início da minha vida adulta, morei na subida da comunidade do Pau da Bandeira, em Vila Isabel, na zona norte do Rio. O local é bem conhecido por conta de um samba que fez muito sucesso. A letra começa assim: “Está nascendo um novo líder...”. Lembrou? Pois é... Eu morava num prédio pequeno, de 3 andares. Ficava na rua Torres Homem, era asfaltado e tal, e eu até gostava bastante do apartamento. De todos os lugares onde eu morei, nenhum banheiro tinha um chuveiro melhor do que aquele, rs...

Tudo era tranquilo, até que a polícia militar chegava...  Era justamente ali, na porta do prédio onde eu morava que eles paravam de subir para atirar em direção ao alto do morro. Não tinha dia nem hora, mas a maioria das vezes isso acontecia durante a semana e pela manhã, horário em que os moradores saíam de casa para levar seus filhos para a escola e iam trabalhar. Não preciso dizer muito do que acontecia, não é?

Nunca mais consegui me esquecer do dia em que vi uma mulher descendo o morro carregando em seu colo uma menininha que havia sido baleada. A criança estava coberta de sangue e a moça soluçava de tanto chorar. Não sei se era mãe da menina, mas ver aquela cena foi terrível demais. Meu coração apertou mais ainda quando eu soube que aquela linda menina teve que ficar um bom tempo sem andar. Graças a Deus, ela se recuperou depois.

Depois que as operações na comunidade terminavam, eu via na TV os policiais sendo entrevistados dizendo que eles não chegavam atirando pra cima. Aquilo me deixava com muita raiva. Sem que eu percebesse, automaticamente eu falava muito mal dos policiais. Os anos se passaram, eu fui morar em outro bairro, mas carregava aquilo comigo. O sentimento ruim crescia e amadurecia junto comigo e eu nem notava... Tanto que na oração que falei que fiz a Deus, nem mencionei esse preconceito. Estava tão arraigado em mim que me esqueci dele!!!

Até que há uns dias, eu soube que a ONG Rio de Paz, fundada e presidida pelo pastor Antonio Carlos Costa, que luta em favor dos direitos humanos, iria fazer um protesto pacífico (como todos que eles fazem) na praia de Copacabana em virtude do assassinato dos PM’s que ocorreram no Rio ao longo do ano.  Por esse ministro ser uma das minhas grandes influências, queria muito conhecê-lo pessoalmente. Estava de folga do trabalho. Logo falei: “Com certeza estarei lá.” Então, fui. Era dia 10/12/2015, uma quinta-feira.

Lá chegando o que eu vi me tocou muito. Eles fincaram na areia da praia fotos dos policias assassinados. Alguns mais novos que eu! Fiquei chocada! Vi alguns familiares de policiais chorando de saudade de seus entes queridos. Vi uma PM abraçando uma moça que era irmã de um policial que havia sido assassinado. Vi uma faixa estendida que dizia: “DIREITOS HUMANOS NÃO TÊM LADO.” Tudo aquilo tocou fundo no meu coração. Comecei a me lembrar que eles tinham família, e que poderiam ter sido parte da minha... Eram filhos, irmãos, maridos, pais... Enfim, eram GENTE!

De repente, me vi junto com os familiares que estavam lá, a PM e os voluntários da ONG fincando rosas vermelhas na areia, na frente das fotos de alguns deles. Naquele momento, todo o preconceito que eu tinha contra aquela corporação foi quebrado. Quando eu fiz esse gesto para homenageá-los, eu não fiquei me perguntando se eu iria colocar a rosa na frente da foto de um policial que também poderia ter matado muitas outras pessoas, nem mesmo se ele foi corrupto ou não. Eu via apenas pessoas que deixaram aqui seus entes queridos cheios de saudades. Deus havia respondido a oração que eu havia feito um dia antes de uma forma melhor e mais surpreendente que eu havia pedido! Por um momento eu parei de prestar atenção em tudo aquilo, abracei meu esposo, fechei os olhos e orei em silêncio agradecendo a Deus a minha cura daquela coisa horrível.

Naquele dia, eu entendi porque Paulo disse em Romanos 12.15 que temos que chorar com os que choram. Aquele que se diz cristão tem que chorar a morte de meninos negros e pobres que os policiais matam, e chorar a morte desses policiais que matam esses meninos. Chorar pelo garotinho refugiado da Síria que morreu afogado e pelos meninos de rua que “moram” na esquina da sua casa. Chorar pela tragédia em Mariana, pelos ataques terroristas em Paris e pela vingança de Paris bombardeando a Síria. Afinal, por acaso o texto faz alguma acepção? Ali diz que uns merecem nossas lágrimas e outros não? Onde? Alguém poderia me mostrar?


      Um beijo daquela que entendeu que dor é dor e que hoje carrega menos um preconceito.

(Escrito em 12/12/2015)


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4 comentários:

  1. Muito bonito o texto e muito bem escrito! Tenho pedido a Deus que me ajude com os meus também! Um abraço.

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  2. Parabéns pelo riquíssimo texto, Mellina. Gostaria que muitos o lessem e refletissem sobre os preconceitos inconfessáveis que trazem no peito. Como foi dito naquela mensagem a que você se referiu, a tal Raabe, conhecida por muitos como "a" prostituta, era também filha de alguém, irmã de alguns, amiga de tantos, prima, sobrinha, neta, etc. Assim como cada um dos policiais lembrados na manifestação promovida pelo meu amigo Rev. Antonio Carlos. Por trás do uniforme odiado por tantos, há um coração de pai, de irmão, de filho. Que o Senhor continue lhe usando para escrever textos abençoadores como este. E obrigado pelo privilégio de servi-los como pastor.

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  3. Texto emocionante e de muita sinceridade. Quando nos colocamos no lugar do outro, vemos tudo de outra maneira.

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