16 dezembro, 2015

Não era só mais um Silva

Por Allan Felipe Freitas

O funk “Rap do Silva” interpretado por Bob Rum fez muito sucesso na década de 90. Uma canção com um refrão que não sai da memória. Mas, esta canção não tem só um refrão popular, também conta uma história. A história de um Silva, sobrenome comum entre os brasileiros, principalmente entre os menos favorecidos economicamente. Um cidadão, morador da periferia, pai de família, trabalhador, que ralava todos os dias, pegava um trem lotado, gostava de curtir um baile e jogar seu futebol. Porém, de repente, foi morto por um disparo de arma de fogo.

Era só mais um Silva...

Infelizmente o final trágico do qual retrata esta canção se repete quase que diariamente na vida real. Segundo a Anistia Internacional, dos 30.000 jovens vítimas de homicídio no Brasil, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados. De acordo com relatório da ONU, a polícia do Brasil é a que mais mata no mundo (Veja aqui).

Temos policiais despreparados, mal remunerados e que contam com equipamentos muita aquém do que necessitam. A guerra as drogas impulsiona inúmeras incursões em favelas que geram intensas trocas de tiros. Viver em regiões onde esses conflitos acontecem é como estar ao vivo numa cena de guerra hollywodiana.

Recentemente 5 jovens foram mortos brutalmente por policiais na periferia do estado do Rio de Janeiro (veja a reportagem). Eles estavam num Pálio branco que foi alvejado por 110 tiros de fuzil, conforme relatou a perícia. Os 5 jovens eram negros, nenhum tinha envolvimento com o tráfico de drogas. Eles haviam saído para comemorar o primeiro salário de um deles.

Não eram apenas mais um Silva...

É triste constatar que esses jovens morreram simplesmente pelo fato de serem negros.

Poucos dias depois deste fato, um menino de 2 anos foi atingido por um disparo durante um confronto entre polícia e traficantes na favela do Metrô, na Mangueira. A criança não resistiu e morreu. Aí eu pergunto: Como fica o coração da mãe, do pai e dos familiares desta criança?

Não era só mais um Silva...

Não era só mais um Silva, e, mesmo se fosse só um já era motivo suficiente para a sociedade demonstrar sua indignação, pois a morte de um cidadão inocente é inadmissível, inaceitável, intolerável.

O contingente de mortos no Brasil supera o da Guerra do Iraque, equipara-se aos números de uma guerra civil, trata-se de um verdadeiro genocídio. O número já ultrapassou e muito o de um Silva. São milhares de Silvas: homens, mulheres, crianças, gestantes, idosos, deficientes. A bala perdida sempre encontra alguém.

Quem sofre com isso? Não são os que patrocinam essa guerra insana, mas aqueles que estão à mercê, as margens, vítimas do descaso do Estado e desta perversa violência.

Não era só mais um Silva...

Não era só mais um Silva, porque todos que carregam um sobrenome simples, diferente daqueles sobrenomes de destaque cheios de vogais, estão sujeitos a se tornarem só mais um Silva, virar número, estatística, e então, fica por isso mesmo.

Amarildo, Cláudia, Eduardo... não sei os sobrenomes deles, se Silva, se Santos, se Barros, se Oliveira, isso não importa. O que importa é que tiveram suas vidas interrompidas por uma guerra sangrenta presente nas grandes cidades de nosso país.

Esses e tantos outros nomes de pessoas que nem sabemos o nome ou que nem mesmo a mídia noticiou são seres humanos, todos iguais. Sejam polícias, traficantes, ou moradores de comunidades carentes. Não podemos reduzir seres humanos feitos à imagem e semelhança de Deus a só mais um Silva.

Bem da verdade, é que em cidades como o Rio de Janeiro, há aqueles que são tidos como os cidadãos “matáveis”. Em sua maioria pobres, moradores de favelas e negros. Contudo, quando a morte chega a zona sul as coisas mudam cor. A imprensa marca em cima, todos dizem: mas que absurdo! Mas quando é na favela, de maneira velada, fica a impressão de que há certo consentimento, do tipo: “na favela pode”.

É hora de revermos nossos conceitos, precisamos nos humanizar, as pessoas estão morrendo devido a uma violência que parece não ter fim.

Por isso afirmo: não era só mais um Silva! Não podemos admitir que seja só mais um.


Chega!





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