16 novembro, 2015

O muro erguido pelo evangeliquês

Evangeliquês, muro

Por Allan Felipe Freitas

- Fala varão! Paz do Senhor! Só vitória? Como vai a varoa?

- Estou numa prova terrível, um vento, um deserto, mas Jeová vai me dar vitória, porque há uma unção sobre mim. Eu sou mais que vencedor, sou vaso, profeta... Sangue e fogo! A varoa está debaixo da minha cobertura.

- Ê manto...  Tá amarrado diabo. Você é um abençoado. Mergulha no azeite que a abundante chuva vai descer. Vai na paz!

Se você é evangélico, provavelmente vai reconhecer esta linguagem e compreender o teor da mensagem acima. No entanto, se você nunca tivesse tido contato com este seguimento, teria condições de entender o que foi expresso? Acharia estranho? Engraçado?

Pois bem, parece que no meio evangélico surgiu uma espécie de dialeto, uma linguagem própria na qual eles se comunicam. Dei-lhe o apelido de envangeliquês, isto é, o idioma dos evangélicos.

É preciso ter consciência dos enormes malefícios que uma cultura de gueto pode trazer para o meio cristão. O caso do evangeliquês talvez seja o mais evidente.

Ora, se a igreja é chamada para proclamar o evangelho, como ela poderá fazer isso falando uma linguagem em que os seus ouvintes não são capazes de decodificá-la. A meu ver, é contraproducente adotarmos um vocabulário próprio, que por vezes, soa hilário a quem desconhece, pois ao invés de atrair, afasta, ao invés de despertar interesse, causa mais desinteresse.

O evangeliquês é um muro que foi construído pelos próprios evangélicos e que marca a separação entre os de fora e os de dentro, os nossos e os “ímpios”.

Um discípulo de Jesus não deve ser reconhecido pelo linguajar diferente, nem por usar roupas distintas, mas pelo procedimento, pelos frutos, pelo comportamento diante da família e da sociedade. Jesus Cristo, o nosso maior exemplo, fazia uso de parábolas para ensinar o povo. Suas parábolas eram elaboradas em cima de fatos da época, do cotidiano, a partir de elementos populares, para que todos pudessem compreender.

Jesus falava a língua do povo, o populaxo, sabia se fazer entender a todos. Nós, no entanto, adotamos um linguajar que não é nada popular e que não facilita em nada a comunicação com os de fora, com os que deveriam ser o alvo da nossa comunicação. O significado de ekklesia (palavra grega que dá origem a palavra igreja) não é chamado para fora?

Ademais, veja o que o apóstolo Pedro diz:

“Estai sempre preparados para responder com mansidão e temor qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós.” (1 Pedro 3.15)

Como transmitir a razão da nossa esperança senão numa linguagem acessível àquele que deseja sabê-la?

Costumamos dar muita ênfase aos dons de variedade de línguas e de interpretação de línguas estranhas (1 Cor. 12), contudo nos esquecemos de que esses dons também dizem respeito a capacidade de compreender e ser compreendido, ou seja, de se comunicar.

Urge o derrubar deste muro que impede a comunicação clara do evangelho de Jesus aos que estão fora dos perímetros do templo. É preciso abandonar esses clichês, jargões tradicionais, e adotar uma linguagem popular, acessível, clara.

Obviamente, devemos preservar uma linguagem sã e irrepreensível (Tito 2.8), porém, não podemos mais nos isolar no nosso próprio mundo. É preciso saber o que se passa no mundo e na sociedade para que o nosso discurso possa ser atual e não ultrapassado.

Sei que tem gente que vai dizer que estou propondo uma mistura com o mundo. Então... Na verdade, devemos nos misturar com o mundo mesmo. Se somos o sal da terra, o sal tem que penetrar nos diversos estratos sociais. Vai me dizer que o sal não se mistura com a comida? 

Observe as palavras de Jesus:

“Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal.”
(João 17.15)

A relação da igreja com o mundo é como a da água com o óleo. Esses dois elementos se misturam, pois podem compartilhar o mesmo espaço num recipiente, no entanto, eles não se combinam.

Que possamos abandonar alguns “aleluias” (termo que significa 10 mil louvores), para que através de uma linguagem clara possamos construir pontes e não muros, alcançando milhares de vidas que carecem do amor de Deus, e assim, a nossa vida seja motivo de aleluias, ou seja, motivo de muito louvor.


Posso contar com a sua ajuda? Vamos derrubar este muro?


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