06 agosto, 2015

Da Misericórdia – Ensaios sobre o Evangelho


Por Leonardo Geranio

O que é misericórdia? Prefiro começar dizendo o que não é misericórdia.

Misericórdia não é um sentimento, uma emoção. Compaixão, empatia, amor são alguns dos geradores, das bases lançadas no coração, responsáveis por criar um ambiente interno que propício a misericórdia.

Misericórdia não é um pensamento. Podemos pensar coisas boas, em sonhos fazer proezas e maravilhas. Mas estamos apenas produzindo imagens em nosso cérebro, povoando nossa imaginação de bons desígnios. Porém, não estamos pensando misericórdia.

Misericórdia não é um discurso. As escrituras sagradas afirmam em Mateus 12:34 que “A boca fala do que está cheio o coração”. Por acaso, tendo nosso coração repleto de sentimentos bons, pensando coisas boas, o que falamos não é misericórdia? Ora se estamos cheios de sentimentos e pensamentos bons, naturalmente nossas palavras irão espelhá-los. Temos então uma língua que abençoa, pacifica, agradece, elogia, se desculpa. Mas não, misericórdia.

Misericórdia também não é uma ação. O que fazemos por nosso semelhante são atos nomináveis. Atos que carregam em si sentido completo. Se nós alimentamos alguém, a ação desenvolvida é a de dar alimento e água. Nós não damos misericórdia.

Misericórdia não se vê, não se pega, não se conta, não se cria, não se constrói.

Afinal, o que é então que Deus nos pede em Oséias 6:6 quando diz “Misericórdia quero e não o sacrifício”?

Para podermos dar a Deus o que Ele nos pede, primeiro precisamos entender o que está sendo pedido.

Na frase, Deus, e mais tarde Jesus (Mateus 9:13), contrapõe misericórdia à sacrifício. Diferente da misericórdia nós podemos objetivar, materializar o sacrifício. Apesar de nos dias de hoje sacrifício ter se transformado em adjetivo para algo feito com extrema dificuldade, ainda assim podemos ver, pegar, criar o sacrifício. Uma mulher indo para o trabalho pode não significar muito para alguém que não a conhece. Mas se soubermos que ela vive uma dura realidade, sabemos que estamos testemunhando um sacrifício. Quando passamos por uma esquina e vemos oferendas de outras religiões, sabemos que ali foi realizado um sacrifício. O mesmo já não acontece com a misericórdia. Se observarmos alguém alimentando outra pessoa, como podemos afirmar as intenções que estão por trás daquele ato? De mesmo modo, quando alguém profere elogios, como saber se não são falsos?

Nos tempos de Jesus, sacrifício não era um adjetivo, mas um ato de morte.

Sacrifício é morte por mim, misericórdia é vida pelo outro. A cruz do Calvário é o ato máximo de misericórdia de Deus por toda a humanidade.
Podemos entender que misericórdia é diferente de algo objetivo, concreto. É diferente do que seja feito à exterioridade. É diferente de um ato de morte.
Logo, podemos afirmar que todo ato gerador de vida, todo ato que contém sentido de valorizar e dignificar a existência, todo ato que contém a vida em abundância expressa por Jesus (João 10:10) é um ato de misericórdia.

Na misericórdia, está manifesta a verdade, a justiça, o amor, a graça de Deus.

Podemos afirmar também que misericórdia habita o interior da pessoa. Ela classifica as ações, palavras, pensamentos e sentimentos. Você doa por misericórdia. Você partilha por misericórdia. Você tem compaixão por misericórdia.

Misericórdia está presente em todo o processo que se inicia na consciência, é alimentado no coração, enviado ao nosso falar e concretizado em nosso agir.
Para chegarmos neste estágio de colocar em nossos sentimentos, pensamentos, palavras e ações o selo, o carimbo da misericórdia, devemos amar a Deus acima de todas as coisas para impedir que coloquemos qualquer outra coisa neste lugar de destaque em nossas vidas, que conseqüentemente irá nos prender a valores que tornarão a habitação da misericórdia em nós algo impossível. Depois devemos amar nosso semelhante mantendo certa margem de segurança, a saber, o amor por nós mesmos. Isto não permite que coloquemos o outro num patamar divino, mas também impede que sejamos alheios ao seu existir, seja na dor ou na alegria (Mateus 12:30-31).


Misericórdia, portanto é um estado que nosso espírito, nosso entendimento, nosso ser alcança única e exclusivamente pela graça de Deus (Romanos 3:23-24; Efésios 2:8) e pelo trabalho árduo do Espírito Santo (João 16:8). Não foi em vão que Jesus afirma no sermão do monte em Mateus 5:7 “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.”


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