14 julho, 2015

Ser ou ter, eis a questão


Por Allan Felipe Freitas

É parafraseando a fala do espetáculo “A tragédia de Hamlet”, escrito por Willian Shakespeare, que quero guiar essa reflexão, também tratando de uma questão existencial: ser ou ter, eis a questão.

Estamos inseridos num contexto sócio-histórico dominado pelo capitalismo, pela cultura do consumo. Muitos teóricos das ciências humanas e sociais desenvolvem trabalhos com essas temáticas, alguns classificam a nossa era como a pós-modernidade, outros como a pós-pós-modernidade, outro como a hipermodernidade, no entanto, apesar das divergências, muitos convergem para o conceito de sociedade de consumo.

Não me prenderei a detalhes sobre os conceitos e nem sobre os pensadores, pois o enfoque deste texto é tratar uma questão existencial que atravessa a todos que vivem neste tempo. Mediante a este contexto cultural no qual o objetivo principal da vida passa a ser o lucro, o conquistar posses, o reter a maior quantidade possível de bens, alguns aspectos importantes são desconsiderados.

Toda a dinâmica capitalista nos impõe a necessidade de trabalhar por longas jornadas e estar sempre utilizando o nosso poder de compra. Dificilmente passamos um dia se quer sem comprar algo em um estabelecimento, seja virtual ou físico.

É aí, que há uma inversão de valores que tem desmantelado a nossa sociedade e, fluidificado as relações humanos. Neste sentido, o sociólogo Zigmunt Bauman vai dedicar uma série de títulos falando da liquidez das relações contemporâneas.

Perceptível é que estamos deixando de amar as pessoas e usar as coisas, para amar as coisas e usar as pessoas. De acordo com a moral Kantiana, nenhuma pessoa deve ser usada como um meio, mas como um fim, porém parece que muitas pessoas hoje estão optando pelo princípio de Maquiavel em que os fins justificam os meios.

Vivemos no afã de ter, parece que para ser alguma coisa, antes é preciso ter. Por isso, lutamos pelo ter, para que então, possamos ser. Outra inversão sem sentido.

É tão triste observar que as pessoas são tratadas pelo que elas possuem e não pelo que são de verdade. Se eu for a uma loja de grife mal vestido, de chinelo de dedo, bermuda e regata, provavelmente nem serei notado, mas se eu retornar aquela loja num automóvel X e vestindo um terno e gravata da marca A, calçando um sapato da marca G, não tenho dúvidas de que serei muito bem recebido.

O desejo de ter é legítimo, porém quando o desejo de ter é maior do que o de ser corremos um sério risco de abrir mão de valores inegociáveis, de renunciar a ética e a virtude para conseguir o que aspiramos. Muitas pessoas estão sendo consumidas pelos seus sonhos de consumo, uma obsessão terrível, destrutiva, perversa que corrompe.

No anseio de ter, muitos deixam de ser... de ser fiéis a Deus, aos princípios bíblicos, a justiça, a amizade. Quantos precisam lançar mão de expedientes imorais, indecentes, injustos nos quais desfavoreceram a muitos. Terão que passar a perna em alguns e usar outros, tudo para chegar aonde queria, tudo pelo ter.

Sendo assim, deixam de ser honestos, corretos, íntegros, transparentes.

Como consequência de uma busca desenfreada pelo ter, quantos e quantas deixam de estar presente, de ser presentes na vida do filho, da filha, do marido, da esposa. Quantas famílias destruídas, porque o ter está antes do ser no projeto existencial de um de seus membros? Quantos filhos frustrados, sentindo-se rejeitados e esquecidos pelos pais? Quantos casamentos sucateados?

O pior de tudo é que lobos travestidos de pastores insistem em pregar uma mensagem que só aumenta o desejo pelo ter em detrimento do ser, alimentando o que há de pior nas pessoas, uma ambição da pior espécie. Como isso desumaniza! Transforma os ouvintes deste pseudo evangelho em robôs programados para pensar, falar e agir de acordo com um objetivo: ter dinheiro, ter poder, ter fama, comprar, enriquecer.

Jesus não tem nenhum compromisso com o ter, o seu evangelho não trata do ter, mas sim do ser. Ele está preocupado é com que tipo de pessoas você vai se tornar e não se você vai enriquecer de uma hora para outra.

A Bíblia nos instrui que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Além disso, Cristo ensinou que:

“a vida de um homem não consiste na abundância de bens que ele possui”
(Lucas 12.15b)

Quando nos concentramos em ser pessoas semelhantes a Cristo, gente que ama o próximo, faz o bem, serve o necessitado, perdoa a quem lhe ofende, luta pela paz, transmite a alegria e produz o fruto espírito, o ter é consequência. Portanto, o ser nos habilita a ter, mas não como um fim em si mesmo e sim como uma oportunidade de se fartar e compartilhar com quem não tem.

Às vezes, lutamos pelo ter e de maneira inconsciente, pressionados pela sociedade, nos vemos como reféns desse sistema, porém não somos obrigados a reproduzir esse modo de existência. Oro para que esse texto sirva de espelho e que se necessário for, você possa ajustar o foco da sua existência para o que realmente importa, o ser.

O cristianismo trata do ser, fala de uma jornada existencial desapegada das coisas materiais, se você quiser viver a experiência de andar plenamente na luz do evangelho o ser vai ser sempre prioridade.



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