30 junho, 2015

Evangelização Impessoal

Por Allan Felipe Freitas

Não é incomum no meio cristão ouvir a pergunta: Quantas almas você ganhou para Jesus no ano passado? Essa pergunta tão naturalizada no seio da igreja, superficialmente parece positiva, porém se analisarmos pormenorizadamente este questionamento veremos alguns conceitos que trazem um modelo de pensamento um tanto quanto inapropriado, impessoal.

Ao perguntar quantas almas ou quantas vidas, estamos tratando de pessoas como se fossem números, a pergunta e a resposta estão no âmbito do quantitativo, nota-se claramente uma relação de objeto, despersonalizada, despersonificada e coisificada. Nem sempre quantidade indica qualidade. Centenas, às vezes milhares de pessoas aceitam a Jesus em cruzadas evangelísticas, o número impressiona, mas a pergunta é: depois da cruzada para onde elas vão? Quem as acompanha? Quantas permanecem? Quantas são discipuladas?

Quando eu pergunto “quem você ganhou para Jesus?” a coisa muda de história, a pergunta direcionada carrega uma proposta do qualitativo, diz respeito à subjetividade, coloca esse outro que na verdade é um Outro / um alguém, como sujeito, como pessoa. Uma pessoa com nome próprio, com uma história, cultura, família e uma série de particularidades.

Não podemos desprezar a singularidade na obra da evangelização, pois não estamos evangelizando coisas, mas gente. Cada alma que alcançamos para Jesus é única, é especial, é diferente.

Infelizmente a lógica que impera durante séculos nos círculos protestantes é uma lógica colonialista, que nega a cultura, o conhecimento, a singularidade e subjetividade do outro. Um funcionamento de depositante e depositário, ou seja, o missionário ou o evangelista detém todo o saber e o deposita naquele que é alvo da evangelização que por sua vez só deve ouvir e não tem nada a contribuir.

Sendo assim, não há espaço para ouvir aquele a quem se deseja apregoar as boas novas, ademais, se nem ao menos temos condição de ouvi-lo, quem dirá de servi-lo. É neste ponto que a abordagem evangelística tem falhado e feio. Só podemos pregar para quem estivermos de fato dispostos a servir.

É preciso aprender com Jesus, o nosso Mestre tinha o costume de chamar as pessoas pelo nome, quando não, considerava a história pessoal; a cultura de modo nenhum era desprezada, demonstrava carinho, respeito e não diminuía ninguém.

Basta notar como Cristo aborda Zaqueu (Lc. 19. 1-11), Ele o chama pelo nome, deseja ir até a sua casa para lhe conhecer, para saber quem era aquele publicano. Certamente Jesus já sabia de toda a história de Zaqueu, o conhecia por dentro e por fora, porém nada que Jesus faz é desprovido de propósito, em sua pedagogia Ele nos ensina a lidar com aquele que desejamos pregar de uma maneira especial, valorizando quem aquela pessoa é.

É preciso romper com o pensamento de que somos melhores do que aqueles para os quais estamos levando a Palavra. O simples fato de nos consideramos superiores já cria uma barreira imensa...

Talvez por tratar as pessoas de uma maneira impessoal é que vemos tantos soldadinhos de chumbo nas igrejas. Gente que parece que não tem personalidade própria, sem autenticidade, todos igualzinhos na forma de se vestir, de falar, de andar. De repente, essa despersonalização tem início logo quando a pessoa é evangelizada e culmina em pastores que imitam até mesmo a voz e a deficiência na mão de seu líder.

Que Deus nos ajude a romper com esse paradigma colonialista e, nos capacite para desenvolver uma estratégia de evangelismo mais próxima, mais realista, mais horizontal e menos vertical, bem mais pessoal e nunca impessoal.


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