05 maio, 2015

O Deus justo e subversivo revelado nas páginas do Antigo Testamento: algumas reflexões para um evangelho envolvido com a causa social

Justiça, subversão
Por Allan Felipe Freitas

Estou relendo o livro de Jeremias e nesse mergulho nas páginas do Antigo Testamento alguns detalhes me saltaram os olhos, pude enxergar, entre linhas, algumas características do Deus todo-poderoso ao qual sirvo e que me impressionaram. Por isso, gostaria de compartilhar a impressão que tive como fruto dessa leitura. Pretendo também, instigar-lhes à leitura desse livro para maior compreensão do que está sendo abordado aqui, principalmente dos capítulos 26 a 40 e, em especial, o 39.

Observe como Deus ama a justiça e opera para que ela se estabeleça, não é a toa que a bíblia descreve o Reino de Deus como sendo um Reino de equidade (Sl. 45.6). De acordo com o relato bíblico, o profeta Jeremias havia anunciado que o rei Nabucodonosor tomaria a cidade de Jerusalém. Nesse tempo, o povo de Jerusalém estava alheio a lei de Deus, praticando a injustiça, oprimindo o pobre, desobedecendo às ordenanças de hospitalidade e generosidade. Havia uma desigualdade social patente. Contudo, Deus sempre fez questão de dar aos hebreus riquezas e bênçãos materiais, onde eles colocavam suas mãos a prosperidade surgia.

Sendo assim, por que havia pobres e necessitados entre eles?

A miséria estava presente devido à má distribuição de terras e de renda, já naquela época era necessária uma reforma agrária que contemplasse a justiça social e a igualdade e não os interesses políticos e econômicos. Naquela época, o rei estava preocupado com sua fama, com o seu conforto e com os seus bens, o bem-estar do povo não era prioridade e talvez não estivesse na sua pauta.

No Brasil temos uma realidade parecida, só muda o modelo de governo, antigamente era uma monarquia e aqui temos uma democracia. No entanto, o cenário é o mesmo, precisamos de uma reforma agrária, pois uma parcela minúscula de nossa população concentra mais da metade do nosso território. Estou falando de latifúndios, isto é, de lotes de terra do tamanho de cidades como o Rio de Janeiro e Niterói e que pertencem a uma só pessoa. Muitas dessas terras são improdutivas e poderiam servir para famílias plantarem e colherem, e assim, retirarem o seu sustento.

O plano de Deus para uma sociedade não está pautado na desigualdade, o Rei dos reis abençoa os seus para que estes repartam de maneira que, os seus (a quem chamo de agentes do Reino) amenizem a desigualdade social, econômica e cultural, como está explicitado no livro de Atos, onde os membros da igreja primitiva tinham tudo em comum sem haver um necessitado se quer entre eles (At. 4.34). Os cristãos da igreja primitiva repartiam o que tinham: propriedades, roupas, comida, conhecimento e etc.

Portanto, quando a exploração de muitos é a fonte de lucro de poucos e os membros de uma sociedade agem de maneira conivente e conformada temos um pecado social.

O pecado social é o pecado da omissão de todos, do governo, da população, da igreja. É o pecado da indiferença, do egoísmo de cada indivíduo, somando um a um. O homem que deveria ser um ator-protagonista de transformações sociais se contenta em ser um observador e mantenedor do status quo.

Constata-se que o povo de Jerusalém não se importava com a pobreza, com a miséria e com a opressão aos pobres. Dentro deste contexto, Deus usa Nabucodonosor, rei da Babilônia, para invadir Jerusalém e governá-la. Repare, Deus resolve usar Nabucodonosor, rei da Babilônia! É ou não é subversivo? 

Observe que uma das primeiras medidas que o novo governo toma é a de preservar a vida dos mais pobres da terra e lhes dar vinhas e campos para que tenham onde e com o que trabalhar.

“Porém dos mais pobres da terra, que nada tinham, deixou Nebuzaradã, o chefe da guarda, na terra de Judá; e lhes deu vinhas e campos naquele dia.” (Jeremias 39.10)

É ou não é muito louco isso? Os religiosos piram... O povo de Deus é quem deveria fazer o que o governo da Babilônia fez, entretanto, negligenciaram a justiça e a prática do bem. É impressionante como a subversão acontece nessa narrativa bíblica, Deus levanta um povo pagão para estabelecer a justiça social em Jerusalém e Judá, algo que durante anos e anos os israelitas não foram capazes de fazer, tendo eles toda a revelação do seu Deus.

Além disso, outro detalhe que me chamou muita atenção é a diferença de tratamento dado a Jeremias pelo rei Jeoaquim (Jr. 36) que rejeitava a sua mensagem e desprezava o profeta e o tratamento que Nabucodonosor, ao invadir a cidade, dá ao servo de Deus. Nabucodonosor tratou Jeremias na qualidade de profeta.

“Mas Nabucodonosor, rei da Babilônia, havia ordenado acerca de Jeremias, a Nebuzaradã, o chefe d aguarda, dizendo: Toma-o, cuida dele e não lhe faças nenhum mal; mas faze-lhe como ele te disser.” (Jeremias. 39.11-12)

Impressionante não? Um rei criado e ensinado segundo a lei não tinha temor e respeito ao Deus que usava o seu profeta, no entanto, um rei de um povo pagão reconhecia em Jeremias um profeta do Deus Altíssimo.

Doravante, tomando essa passagem como referencial, oro para que a igreja desperte para o sermão da montanha no qual Jesus enfatiza a questão da justiça. Não podemos achar que justiça não é problema nosso, pois devemos buscar primeiramente o Reino de Deus e a sua justiça (Mt. 6.33). Não é possível conceber um pesamento do tipo: não temos nada a ver com os 7,2 milhões de pessoas que passam fome no Brasil[1], com o fato do Brasil ocupar o 1º lugar no relatório da ONU no quesito exploração sexual infanto-juvenil[2], com a escravização da mão de obra de cerca de 100 mil bolivianos em nossas terras[3], com as 450 mil crianças brasileiras que estão trabalhando ao invés de estarem estudando.

Pobreza, miséria, desigualdade, injustiça social, fome

Trabalho escravo

Não venha me dizer que a igreja não tem culpa disso, porque na verdade o evangelho abrange inclusive as questões sociais, não há nada que escape a seu escopo. Por isso, não podemos nos conformar com o 8º lugar no ranking de países com maior número de analfabetos[4] e com os quase 33 milhões de habitantes sem teto que estão espalhados por nosso território[5]. Isso é um absurdo e parece que poucos se preocupam com tais alarmantes dados.

Deus levantou a sua igreja para operar transformação, restauração e justiça, esse trabalho é nosso e não dos anjos. É preciso estar engajado na luta por uma sociedade mais justa, igualitária, com acesso a educação, cultura, moradia, saúde e trabalho digno. Não podemos tolerar que em pleno século XXI o Brasil tenha analfabetos, pessoas morrendo por balas perdidas, mulheres perdendo seus filhos por falta de médicos em hospitais e uma taxa altíssima de corrupção entre os políticos, que subtraem o recurso que se outrora fosse bem administrado, daria conta das demandas que temos.

O Deus justo e subversivo do Antigo Testamento é o mesmo revelado em seu Filho Jesus e está olhando para nós no Brasil. Será que Ele precisará levantar pedras para clamar ou 'Nabucodonosores' para nos perseguir, para que então, haja um despertar do seu povo nessa nação?




[1] Dados da pesquisa IBGE de 2014.
[2] Relatório de 2001.
[4] Relatório ONU de 2013.
[5] Segundo matéria do portal aprendiz.uol ; disponível em: http://portal.aprendiz.uol.com.br/content/ruchewruce.mmp


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1 comentários:

  1. Texto desafiador. Que o Senhor nos quebrante o coração e nos faça ver o quão longe estamos do ideal do reino de Deus.

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